O visitante que olha para o telhado da Fazenda do Resgate possivelmente não se dá conta de que as belas telhas, produzidas nos moldes das coxas das escravas, são um grande problema para a conservação do Patrimônio Histórico. Apesar de muito bonitas, a irregularidade destas telhas impede seu encaixe perfeito permitindo que, em dias de chuva de vento, a água adentre todos os salões e demais aposentos do casarão.
Depois de anos de abandono, na década de 1970, a fazenda passou por uma recuperação estrutural em larga escala beneficiando-se do magnífico trabalho do então proprietário, o Sr. Carlos Eduardo Machado Kramer que, tendo-a encontrado em péssimo estado, conseguiu recuperar o velho sobrado em toda sua dignidade e esplendor. Infelizmente sua morte prematura não lhe permitiu chegar à solução definitiva para o problema do telhado.

Alguns anos mais tarde, quando a fazenda foi vendida, o novo proprietário percebeu que problema do telhado precisava de uma solução de curto prazo, porque os afrescos pintados por José Maria Villaronga na segunda metade do século XIX, estavam ameaçados. Assim, o trabalho começou pela substituição de grandes peças de madeira que estavam bastante desgastadas devido à ação do tempo. A seguir, utilizando uma técnica recém desenvolvida na época (meados da década de 1980), foi construída uma defesa permanente que se estende por todo o telhado, logo abaixo das telhas. Finalmente, todas as telhas começaram a ser colocadas no lugar. Contudo, era necessário substituir várias telhas que estavam quebradas. Felizmente, muitas telhas intactas foram encontradas enterradas no jardim e, desta forma, o telhado pôde ser completamente refeito nos moldes do século XIX.
No entanto, as paredes e as pinturas do Resgate tinham sofrido as conseqüências da umidade e precisavam de restauração. Surgiu então o grande problema: onde encontrar alguém capaz de realizar o trabalho?
Na busca por orientação especializada o proprietário literalmente bateu em várias portas, porém sempre em vão. Finalmente, alertado acerca do extraordinário trabalho de restauração que estava sendo realizado no Paço Imperial do Rio de Janeiro, o proprietário buscou ajuda com os profissionais envolvidos. Através destes contatos surgiu uma jovem restauradora chinesa que se dispôs a enfrentar o desafio. Assim, Chang Chi Chia veio morar na Fazenda do Resgate, onde passou vários anos de sua vida.
A restauração começou pela sala de jantar e seus três afrescos; a seguir, foi para o Hall de entrada da casa. Depois de alguns anos de trabalho, chegou a hora de restaurar o Salão Azul. Por causa das várias pinturas (quase cem), dos detalhes em relevo em todas as portas, janelas, paredes e do lindo teto ricamente ornamentado, o Salão Azul consumiu vários anos de trabalho árduo.
Porém, durante todo esse processo, um detalhe que talvez poucos saibam merece destaque. A restauração não podia ser feita durante o dia, pois a luz do sol, mudando de tonalidade ao longo do dia, impedia a realização de um trabalho perfeito. Portanto, a restauração foi feita durante a noite, utilizando-se uma luz fria e neutra que oferecia melhores resultados.
E ainda havia outro desafio: o emolduramento das portas e janelas, originalmente de arabescos feitos em madeira recoberta por folhas de ouro, tinha sido destruído durante os últimos 150 anos por causa da ação devastadora dos cupins. Esta talvez tenha sido a parte mais delicada e exaustiva de toda a restauração.
Terminado o trabalho no Salão Azul, um novo desafio ainda estava por vir. Agora era a vez do trabalho na Capela. Nesta, as pinturas (incluindo o grande afresco que retrata o batismo de Jesus Cristo) estavam em péssimo estado de conservação por causa da umidade constante presente nesta parte da casa. Assim como o Salão Azul, a Capela do Resgate também é ricamente trabalhada e apresenta diversos relevos em madeira recoberta com folhas de ouro (igualmente destruídas pelos cupins). Desta forma, foram consumidos mais alguns anos de trabalho árduo, que exigiram paciência sem igual da restauradora Chang Chi Chia.
Mesmo assim, Chang ainda teve que retornar à fazenda várias vezes, durante anos, a fim de restaurar o restaurado. Estes velhos casarões, que não utilizavam tijolos em sua construção, têm uma imensa habilidade para absorver umidade.
Mas a verdade é que, felizmente, a umidade e os cupins foram derrotados e a Fazenda do Resgate se apresenta hoje exatamente como era há mais de 150 anos, exibindo com imponência e esplendor toda riqueza da economia cafeeira do século XIX.

Fazenda Resgate - Todos os Direitos Reservados - 2006
sans-serif">Fazenda Resgate - Todos os Direitos Reservados - 2006